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Lâmina



PRECONCEITO É ISSO!

Ópera de Londres anula contrato de soprano devido a obesidade
LONDRES, 7 mar (AFP) - A Ópera de Londres anulou o contrato com a diva americana Deborah Voigt devido a seu peso excessivo, que não lhe permitia interpretar "Ariane em Naxos" nem usar o vestido preto previsto para a ocasião, publicou este domingo o "Sunday Telegraph".

"Ainda que Deborah seja uma cantora magnífica, a roupa e o tipo de produção previstos fazem com que não tenha sido uma boa idéia que ela atuasse nesta ópera", de Richard Strauss, justificou Peter Katona, diretor de elenco da Royal Opera House, em Covent Garden.

”A cantora, cujo peso não é conhecido ao certo, apenas estimado entre 90 e 120kg, não parece compatível com uma produção em que precisaria subir e descer escadas, correr e se atirar no chão”.

Ao ser perguntado sobre o motivo da decisão, uma vez que Deborah foi contratada para a ópera há quase cinco anos e seu peso não aumentou desde então, Katona citou mudanças que foram introduzidas no espetáculo.

 

Opinião de obesa: isso é puro preconceito. Coisa que já comentei várias vezes com amigos, inclusive o Luis, de Londres. Cada vez mais esse fantasma, antes velado, se torna escancarado. Culpa da mídia? Culpa das modelos, do sistema? Sei lá, mas temo que o próximo passo seja a criação de uma espécie de Apartheid contra nossa "classe". Olha, gordo sobe e desce escadas, vira cambalhotas, faz até trapézio, que o demonstre Teuda Bara, a magnífica do Grupo Galpão. Genteeeeee, vão nos transformar em feijoada!!!!!!



Escrito por Ana Cristina às 10h42
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Mais um texto da Clarice Lispector

Eu sei, mas não devia...

 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. a gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do  corpo.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesmo.

                                                                                                                 Clarisse Lispector



Escrito por Ana Cristina às 19h29
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Caio Gracco

Escrito por Ana Cristina às 11h50
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DOMINGO

Ainda hei de descobrir pra que inventaram o domingo. Segundo a lenda mais apreciada do mundo, foi o descanso do Criador após a trabalheira que deu fazer esse mundão todo.  Mas eu, criatura rebelde, não vejo a menor graça nesse tal dia de repouso. Primeiro, se tudo já parece monótono e artificial durante a semana, domingo essa sensação é triplicada.

Porque é domingo, todas as pessoas têm que passear. Porque é domingo, têm que ir almoçar na casa da sogra. Porque é domingo, têm, na maioria das vezes, que aturar imbecis berrando na TV ou se divertindo às custas da desgraça alheia.

Porque é domingo, têm que se meter em filas intermináveis de restaurantes pra almoçar, ou de cinemas.

Domingo pra mim talvez seja o pior dia da semana. Primeiro, porque condena minha reclusão a poucas e desprezíveis opções de lazer doméstico.

Porque eu me lembro dos amigos que tive e fico me perguntando por onde andam.

Porque meu filho dorme até o meio-dia e a casa fica num silêncio absurdo. Quando ele está acordado, o mínimo que ouço é sua respiração ou o bater dos teclados do pc.

Porque eu me sinto tremendamente só, sem ruídos dos vizinhos, sem latidos de cachorros, sem balbúrdia dos meninos que vão à escola.

Porque meu mundo é segunda-a-sábado a observar o mundo girando ao redor. Domingo ele pára.



Escrito por Ana Cristina às 11h41
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