|
Lâmina Estepe
Ela foi se deitar com o corpo dolorido pelos últimos acontecimentos. A perna, as costas e principalmente a alma pesavam-lhe. Ela não entendia a razão de tudo aquilo : silêncios, conflitos, confrontos, atropelamentos físicos e emocionais. O quarto estava minúsculo, repleto de palavras que flutuavam, tentando formar um quebra-cabeça. Cochilou um pouco. Foi acordada pela tempestade. Ela viu então, com certa lucidez, a razão de tudo. Que não tem nada a perder realmente deixa o tempo tomar conta da situação. Mas o que veio, cortante, foi a plena certeza de que havia ali uma página a ser virada. A sensação de abandono, de fragilidade, dava lugar a uma certeza sórdida: ela não representava nada. Era estepe, enquanto não se encontrava conversa melhor, gente melhor, sentimentos. Então, aquele terremoto sem sentido nada mais era do que a justificativa necessária para se arrancar de uma vez o espinho, pra se jogar fora o que não era mais útil. Ela suspirou, olhou pela janela e viu a água varrer a rua. Deitou-se e conseguiu, enfim, adormecer. Escrito por Ana Cristina às 11h42 [ ] [ envie esta mensagem ] Escrito por Ana Cristina às 18h53 [ ] [ envie esta mensagem ] A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO Ela queria resolver aquilo ali, na hora. Estava cansada de se humilhar por uma palavra, uma interjeição que fosse. Estava exausta de pensar se haveria futuro. Desceu as escadas ainda tonta pelos remédios e saiu a vagar pela rua quase deserta. No meio da pista, quase flutuava , tamanho torpor. O carro vinha, devagar. Ela devia ter esperado mais um pouco. Este foi o erro não-fatal. Escrito por Ana Cristina às 08h32 [ ] [ envie esta mensagem ] TESTAMENTO Pra quem acredita, deixo a dúvida; pra quem duvida, deixo a certeza da dúvida; Pra quem sonha, deixo um travesseiro de espinhos; pros que têm pesadelo, o consolo do acordar. Pra quem tem fome, deixo o livro de receitas; pros que têm sede, um balde de lágrimas. Pros que fugiram antes do dilúvio, um dique furado. Pros que fingiram estar ao lado, um poço cheinho de culpas. Pra você eu deixo tudo o que disse e que você pacientemente fingiu ouvir, tudo o que eu confidenciei e que se transformou em piada, tudo que eu desejei e que sublimei em nome de sentimentos mais nobres.
Escrito por Ana Cristina às 21h09 [ ] [ envie esta mensagem ] Nota de rodapé Se tem uma coisa que me deixa pior do que já sou é a indiferença. Escrito por Ana Cristina às 11h34 [ ] [ envie esta mensagem ] Supérflo Hoje eu me sinto aquelas embalagens de isopor que guardam os ovos. Aquelas que embalam os frios. O engradado de papelão que guarda as latinhas de cerveja. A capa de celular de pelúcia com cara de bichinho. Hoje eu me sinto a capa de plástico de tapar liquidificador. Ou o tal porta-batom, que insiste em morar em algumas bolsas. Sinto-me um pratinho de colocar sob o outro pratinho. Uma caneta que acende estroboscopicamente. A lâmina especial pra fazer bolinhas de melão. A regra é: não servir pra nada. Ou servir para ocupar um vazio correspondente a um buraco sem fundo. Estou assim. Uma flanela especial para dar brilho a tacos de golfe. Uma espátula de silicone feita especialmente pra tirar do fogo pitangas glaçadas. Zero à esquerda. Escrito por Ana Cristina às 22h08 [ ] [ envie esta mensagem ] Absurdos da vida moderna
Deu num jornal qualquer:
'Saúde sexual' - PL prevê apoio para quem quiser deixar de ser homossexual
O deputado Neucimar Fraga (PL-ES) quer criar no Brasil um programa de assistência à reorientação sexual para apoiar quem quiser deixar de ser homossexual. Nos Estados Unidos, o presidente George W. Bush anunciou seu apoio oficial a uma emenda constitucional para proibir o casamento entre homossexuais. Por que será que não se preocupam em criar um programa de assistência à reorientação moral dos políticos? Escrito por Ana Cristina às 12h40 [ ] [ envie esta mensagem ]
O bloco mais tradicional da cidade não sai da concentração por falta de um alvará....detalhe, ele tinha o apoio da empresa de turismo da cidade. Faltou...organização? Prazo? Uma coisa é inegável, o sossego e o silêncio de BH neste período é algo que não se compra por dinheiro nenhum do mundo... Mas a respeito do tal "carnaval" que dizem existir aqui, e sem querer ofender aos blocos e agremiações que tentam a todo custo sobreviver, apesar das migalhas oficiais que recebem a título de "patrocínio", surgiram debates acalorados durante uma viagem recente a Oliveira. O grupo , músicos, atores, todos no fundo grandes piadistas, discutia sobre o que fazer do Carnaval da capital mineira. Eu, defensora do Carnajazz, um Festival de Música/jazz em todas as suas tendências, que poderia acontecer nas praças e teatros da cidade, fazia minhas argumentações, quando surgiram outras sugestões um tanto ...inóspitas... Ah: mande também sua sugestão para o Carnaval de BH. Então, está lançado o "enquete". Vote no melhor slogan para o carnaval de Belo Horizonte: ( ) "CARNAJAZ - Aqui Jaz o carnaval do Brasil" ( ) "CARNAZEN - O Nirvana é aqui" ( ) "CARNATCHAU - O último a sair apague a luz" ( ) "CARNABELÔ : Fala sério!" ( ) Todas as anteriores Ah: mande também sua sugestão para o Carnaval de BH. Escrito por Ana Cristina às 09h54 [ ] [ envie esta mensagem ] Caio GraccoEscrito por Ana Cristina às 16h32 [ ] [ envie esta mensagem ] Com a palavra, Clarice Lispector: Não soltar os Cavalos
Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por quê? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para o que estou eu me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: ”é preciso não ter medo de criar” . Por que o medo? Medo de conhecer os limites da minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda. (Clarice Lispector) # para Luis e para Alguém Atento. Escrito por Ana Cristina às 16h20 [ ] [ envie esta mensagem ] Caim, Caim, Caim
Ai se essa cadela tivesse uma caixa preta....E o cachorro não morre de jeito nenhum!!!!!!
Escrito por Ana Cristina às 13h07 [ ] [ envie esta mensagem ]
Suspiro, silêncio, vontade de apertar o coração pra ver se sufoco o vazio. Dúvida, divisão entre a razão e o que nos leva às vontades inexplicáveis e inconfessáveis. Ainda bem que ainda respiro sem essa interferência, Mas todo o corpo me dói entre fincadas profundas, agudas. Faca mais cortante essa, a da paixão. Escrito por Ana Cristina às 11h39 [ ] [ envie esta mensagem ] Escrito por Ana Cristina às 11h15 [ ] [ envie esta mensagem ] Sutileza Ela bateu à minha porta bem cedo. Tinha um ar aliviado, diferente dos últimos dias. Veio me contar sobre um sonho. Entre salões de beleza, latrinas com TV de plasma, ela flutuava com uma impressão de que tudo ali era normal, exceto... Alguém ao lado, em algum momento do sonho. Isso pra ela era o estranho: ter alguém a seu lado, mesmo num delírio. E o mais impressionante: não era sexo, era carinho. Ela podia sentir a sutileza , a delicadeza da falta ou talvez o disfarce das segundas ou terceiras intenções. Ela me contava com os olhos encantados, como quem não sabia mais o que era isso. Confidenciou-me que, se pudesse, pagaria a alguém para ira até a sua casa, um garoto de programa talvez, mas não queria sexo. Seu sonho mais urgente era alguém pra ver TV abraçadinho, com direito a pipoca e calor humano.
Escrito por Ana Cristina às 10h58 [ ] [ envie esta mensagem ] |
||
![]() | ||